Quando chegou à Orquestra Sinfônica Brasileira, em 2016, como diretora-presidente da Fundação OSB, Ana Flávia Cabral encontrou uma instituição em vias de encerramento. “Já existia uma intenção de encerrar os trabalhos em função das dificuldades, até porque a gente estava mencionando as dificuldades da gestão da cultura, da gestão das artes”, lembra em entrevista à coluna. Advogada de formação e vinda do Ministério da Cultura, Ana Flávia trouxe para a OSB a bagagem da gestão pública. Sua proposta era clara: aproveitar o vetor da tradição de uma orquestra de 85 anos para atualizá-la às dinâmicas contemporâneas.

Ana Flávia Cabral é a única mulher a liderar uma orquestra sinfônica no Brasil e foi responsável pelo plano de reestruturação e inovação da OSB que começou em 2016. Foto: Colagem de Thais Barroco sobre fotos de Renato Mangolin e Simone Marinho
O olhar de Ana Flávia sobre a cultura tem raízes profundas na infância, vivida no interior paulista, em contato estreito com a terra e com os valores passados pela família. Mais tarde, em Brasília, foi nas Humanidades e nos Direitos Humanos que encontrou inspiração, o que a levou aos estudos em Direito e à compreensão da cultura como um instrumento de transformação. Essa perspectiva acompanha toda a sua trajetória profissional: ela atuou em escritórios de advocacia, organismos internacionais e empresas privadas, antes de assumir funções de destaque em instituições como a OSESP, a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Ministério da Cultura e, atualmente, a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira.
“Tudo depende de como a gente enxergava a instituição. Nossa decisão foi: a gente vai precisar sair do palco para poder voltar para o palco depois”, resume. A metáfora reflete o processo de reconexão da orquestra com sua própria história, resgatando compromissos e fortalecendo sua reputação. O salto impressiona: de zero patrocinadores e um ano sem salários para 38 empresas apoiadoras e um orçamento de R$ 45 milhões anuais.
Nossa decisão foi: a gente vai precisar sair do palco para poder voltar para o palco depois
Ana Flávia Cabral
Para Ana Flávia, porém, a virada não é apenas pragmática. “A gente precisava ser mais do que uma orquestra. A música é um agente diplomático improvável.” A força desse instrumento se revela, segundo ela, na pluralidade brasileira: “Estamos falando de um País que tem 140 tons de pele, cujos inventários de instrumentos musicais vão do afoxé à zabumba, passando por pandeiro, reco-reco, tambor e apito. Tudo no Brasil é superlativo e diverso.”
Para Ana Flávia, porém, a virada não é apenas pragmática. “A gente precisava ser mais do que uma orquestra. A música é um agente diplomático improvável.” A força desse instrumento se revela, segundo ela, na pluralidade brasileira: “Estamos falando de um país que tem 140 tons de pele, cujos inventários de instrumentos musicais vão do afoxé à zabumba, passando por pandeiro, reco-reco, tambor e apito. Tudo no Brasil é superlativo e diverso.”
Primeira mulher a assumir um cargo equivalente em orquestras sinfônicas do mundo, Ana Flávia confessa que não tinha consciência da dimensão do feito. “Eu venho de um universo predominantemente masculino, que é o jurídico. Como mulher, a gente sabe várias histórias sobre romper resistências. O que nos traz dificuldades adicionais é o fato das pessoas desconfiarem que a gente é capaz.”
A gente precisava ser mais do que uma orquestra. A música é um agente diplomático improvável
Ana Flávia Cabral
No caso da OSB, ela atribui sua chegada também à confiança de homens que acreditaram em seu trabalho. “Existe sim uma contribuição diferenciada da mulher, uma capacidade sensível que se soma à bagagem técnica. Foi com isso que eu pude entregar conhecimento e experiência, enxergando também um afeto, um amor em tudo isso.”
Essa perspectiva a levou ao cenário global. Única latino-americana no júri do Music Cities Awards, ela integra uma rede internacional que identifica projetos transformadores de música. “A novidade é olhar a música como agente de diplomacia. Quando colocamos essa visão organizacional, percebemos como isso nos identifica globalmente. Aquilo que conduzimos na Sinfônica Brasileira, no interior do Maranhão, acontece também em Uganda, no Marrocos, na Austrália.”
A partir dessa lente, a música se apresenta não apenas como expressão artística, mas como vetor econômico e social. “A música tem essa vantagem de ser uma linguagem universal. A gente consegue falar de diversidade, inclusão social, empregabilidade, geração de riqueza, entretenimento. É um produto que gera encontros, emoções e sentimentos.”
Daí nasce o projeto Conexões Musicais, iniciativa de educação musical gratuita em escolas públicas. “Não ter a música na escola é um grande problema. Isso precariza o currículo e impede que a criatividade das crianças seja desenvolvida. A criatividade não é inata, ela precisa ser estimulada. Vivemos a era da inteligência artificial, que depende de criatividade, mas não estamos desenvolvendo essa capacidade na escola.” Para ela, o ensino musical ajuda não só a formar artistas, mas também a fortalecer habilidades cognitivas, matemáticas e de interpretação de texto.
Não ter a música na escola é um grande problema. Isso precariza o currículo e impede que a criatividade das crianças seja desenvolvida
Ana Flávia Cabral
Os 85 anos da OSB, celebrados em 2025, reforçam o peso dessa missão. “Fazer aniversário tem a ver com o que explica uma orquestra existir há tanto tempo, o que explica a tradição da música orquestral há séculos. A gente brinca que a OSB tem uma tradição de vanguarda, que nasceu jovem, cheia de mulheres, 85 anos atrás. Celebrar esse aniversário é reafirmar o compromisso de seguir criando mudanças e cumprindo nossa missão de cuidar dos territórios de sentimento e emoções que contribuem para a sociedade.”
Além da OSB, Ana Flávia acaba de ser chamada para colaborar com um movimento global de liderança feminina em áreas estratégicas da nova economia, como transição energética, segurança alimentar e moradia. “Eu fui chamada como uma liderança da cultura. Isso é importante porque mostra que a contribuição da música vai muito além da indústria criativa. Ela é também uma matriz econômica.”
Além da OSB, Ana Flávia acaba de ser chamada para colaborar com um movimento global de liderança feminina em áreas estratégicas da nova economia, como transição energética, segurança alimentar e moradia. “Eu fui chamada como uma liderança da cultura. Isso é importante porque mostra que a contribuição da música vai muito além da indústria criativa. Ela é também uma matriz econômica.”