Foi a última vez que cruzei o Atlântico com minha mãe. Voltamos de uma temporada na Itália. Estávamos acompanhados da minha irmã. Sabíamos que não haveria chance de voltar à Europa porque a saúde dela declinava rapidamente. Estávamos alegres pela felicidade dos dias anteriores e isso bastava.
Viajávamos os três na classe executiva. Cuidávamos da nossa mãe como um bonsai raro plantado em porcelana frágil. Instalados e alegres, vimos passar por nós uma senhora rica. Difícil definir, mas o dinheiro antigo é muito fácil de identificar. Gestos, roupas, acessórios, tom de voz, olhar: tudo gritava (ou sussurrava, porque gente elegante não grita) que ali estava uma arca recheada que remontava às capitanias hereditárias. Era uma clara descendente de Martim Afonso de Souza retornando ao Brasil. Passou por nós e avançou para a primeira classe, seu lugar de direito desde as caravelas.
A primeira classe está minguando, em geral. Poucos voos ainda a apresentam. A executiva tornou-se o teto do conforto, com honrosas exceções. Aquela senhora deveria ter andado na melhor escolha da PanAm, Varig e no curto verão do Concorde… Tinha o olhar blasé de elite romana vendo o avanço dos bárbaros. Antecipava que, no ritmo atual, talvez fosse obrigada a andar de executiva em alguns anos. Deve ter se arrepiado com o ocaso de uma era dourada. Porém, por enquanto, ainda poderia viver esse discreto luxo na Ilha Fiscal.
A senhora, rica por definição estética e gestual, virou-se da sua área refinada e encarou minha mãe. Foi algo rápido. Certamente as freiras do Des Oiseaux ou do Colégio Sion deveriam ter ensinado a não fixar o olhar. Olhou porque ajeitava sua delicada lã “vellus aureum” da Zegna e assentou-se, solene. As pupilas da minha mãe cruzaram com as dela e percebi um tremor leve. Perguntamos o motivo e ela desconversou.

Na Idade Média, os pecados dos ricos eram a vaidade e a avareza; o dos pobres seria a inveja. Na imagem, a tela ‘Monomaníaco da Inveja’, de 1819 Foto: Theodore Gericault/Creative Commons
Durante o voo, minha mãe passou mal do estômago, apropriando-se de todo o estoque de saquinhos de enjoo da aeronave. Foram chás, água, mais saquinhos… Um pouco recuperada, ouviu meu diagnóstico: dias de culinárias diferente, almoços em Veneza, Sirmione e Milão. Houve sorvetes e massas, peixes do Adriático e outras quebras de protocolo para um estômago debilitado. Dona Jacyr discordou: tinha sido o olhar maligno e invejoso da mulher rica da primeira classe.
Ficamos estarrecidos. Argumentamos: “Mãe, ela está na primeira classe, inveja do quê?”. Poderia ser piedade, compaixão por essas pessoas que vão assim “aboletadas” em uma viagem longa. Eu me lembrei do soneto de Machado de Assis, Círculo vicioso. Nele, todos os seres se invejam: o vaga-lume almeja ser estrela, esta aspira pela Lua e o astro noturno mira no Sol radiante como meta. Pesarosa, nossa radiante estrela pensa que seria bom ser… um simples vaga-lume.
Minha mãe acreditava em “olho grande”. Supunha dardos disparados pelo olhar que tinha poderes sobre o estômago alheio. O invejoso era um perigo real e seu fluxo maligno tinha atingido minha genitora.
“Inveja do quê?”, eu pensava de novo. Já sobrevoando o Brasil, minha mãe acrescentou outro dado. Sim, fora invejada pela rica da primeira classe! O olhar dela fora um miasma pestilento que atingiu o estômago da minha mãe. A inveja não era econômica. A mulher tinha CPF mais forte. O alvo da inveja era que minha mãe estava com dois filhos e ela, sozinha. Rose e eu tínhamos estado amparando, servindo e zelando de forma explícita. Exibíamos, sem querer, a joia mais cobiçada de uma mãe de idade: filhos amorosos. Ela tinha Van Cleef & Arpels impressionantes, minha mãe tinha filhos dedicados. Seria verdade? Eu seria uma pessoa material que tinha apenas centrado a análise em passagem mais cara e joias mais vistosas?
Meu treino psicanalítico trouxe o contraditório apenas para mim. Teria minha mãe invejado uma pessoa capaz de viajar sozinha e com autonomia. Haveria uma gaveta no coração de dona Jacyr que desejava isolamento – algo que ela não experimentava desde 1959, ano do seu casamento com o dr. Karnal? Ela tinha dito centenas de vezes: “Sem minha família eu não existo”. Isso seria um sentimento feliz ou um fardo? Se eu existo, eu dependo, se eu dependo, isso me controla, se me controla, há chance de me oprimir.
Sobre a inveja
Na Idade Média, os pecados atribuídos à riqueza eram a vaidade e a avareza. Os pobres seriam invejosos. Todos pagavam esses sentimentos mesquinhos com penas no Purgatório.
Depois da Teologia, veio a Filosofia e surgiu, por fim, Freud, que fala do sentimento reativo: transfiro para o outro o que me incomoda perceber em mim.
Poucos acreditam muito no pecado hoje e menos ainda são bem psicanalisados… O desvio da norma é uma gramática para lidar com culpa e com traumas pessoais. Invejamos quem admiramos, como diria Hume; ou invejamos quem supomos mais beneficiado, como pensou Caim? Ter mais dinheiro ou mais filhos? Primeira classe ou apoio filial? Por fim, lá do fundo, a classe econômica poderia ter dado seu pitaco no debate sobre invejados e invejosos. Do chão, o passageiro sentado no ônibus poderia contemplar o avião no alto e jogar a dor do vaga-lume para cima, como nos versos de Machado.
Ao final da viagem, desembarcaram: invejosos, invejados, ricos, classe média e remediados. Encaminharam-se ao finger os que vieram sós e os que vinham amparados por filhos exemplares. Ao limpar o avião, a moça da manutenção deve ter estranhado e ficado com nojo de tantos saquinhos cheios. A inveja de uns dá trabalho para outros. Tenho inveja de quem sempre tem esperança.