Robert Plant subverte o rock n’ roll sem ignorar o Led Zeppelin em show místico e encantador em SP

Robert Plant subverte o rock n’ roll sem ignorar o Led Zeppelin em show místico e encantador em SP

Em 1966, o britânico Roberto Planta era apenas um jovem desconhecido, enfrentando dificuldades financeiras e sem imaginar que, poucos anos depois, cruzaria o caminho de Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham, parceiros com quem faria história no Led Zeppelin.

Naquele ano, entretanto, ele já começava a alimentar o desejo de estar em uma banda bem sucedida e registrou sua primeira gravação profissional. Com o grupo Listen, ele cantou com voz empostada, à la Tom Jones, no single É melhor você correroriginal de The Rascals. A faixa não causou nenhum impacto e, Plant, sem perspectivas, passou a morar de favor na casa da namorada. Ele tinha 18 anos na época e entendia, segundo relatou o biógrafo Paul Rees, que se não realizasse seu sonho até os 20, iria desistir e arrumar “um emprego de verdade”.

O cantor Robert Plant se apresenta, ao lado de Saving Grace e Suzi Dian, durante o C6 Fest em São Paulo Foto: Taba Benedicto/Estadão

Passadas seis décadas, Plant, aos 77 anos, subiu ao palco do Festival C6no Parque Ibirapuera, em São Paulo, neste domingo, 24, ainda sem “um emprego de verdade”. Sorte do público, afinal, é rara a oportunidade de ver ao vivo um dos maiores cantores da história do rock n’ roll. Azar dos saudosistas, pois ele não estava ali para celebrar os velhos tempos, ao contrário do que fez entre 1994 e 1998, na parceria Page and Plant, ou na emblemática reunião única do Led Zeppelin, em 2007, eternizada no filme/álbum Dia de celebração (2012).

Hoje, à frente do projeto Graça salvadoracoletivo com quem ele gravou um extraordinário álbum no ano passado, o cantor quer celebrar as raízes do gênero que o consagrou, oriundo do caldo musical de estilos tradicionais como folk, gospel, country, bluegrass, americana – uma tendência a qual ele já se inclinara quando trabalhou com a cantora Alison Krauss. Neste caso, porém, percebe-se um apreço especial pelo som “soft” da costa oeste dos Estados Unidos.

Uma noite mística no Ibirapuera

Isso já ficava evidente nos primeiros acordes de O mesmo dia em que parti e O Cuco. O dedilhado preciso do banjo e a sonoridade melancólica do violoncelo criaram a base ideal para Plant começar a cantar em harmonia com a voz doce de Suzi Dian.

Além de exibir ótimos vocais e talento no acordeão, a jovem conferia uma presença angelical com seus cabelos loiros, em contraste com as madeixas hoje grisalhas de Plant, outrora conhecido como ‘Deus Dourado’ – alcunha mitológica famosamente citada no filme Quase Famosos (2000). Em uma cena inspirada na vida de Plant, o personagem Russell Hammond, em meio a uma experiência psicodélica com ácido, sobe ao topo de uma casa e grita: “Eu sou um Deus Dourado!”, antes de se lançar na piscina.

Plant canta ao lado de Suzi Dian em São Paulo Foto: Taba Benedicto/ Estadão

“Estamos muito felizes de estar aqui com vocês. Da última vez que vim aqui, estive com Jack White e foi muito divertido”, disse Robert ao público, se referindo a sua última visita à capital paulista, quando participou do festival Lollapalooza junto com o guitarrista do The White Stripes, em 2015. “Este é o fim da nossa turnê no Brasil. Então, infelizmente, é hora de ir para casa”, lamentou, antes de fingir enxugar uma lágrima e, brincando, dar tchau e ameaçar deixar o cenário naquele momento.

Sempre de bom humor e muito concentrado, o astro interagia pontualmente com os fãs e os agradecia em português. A projeção enorme refletida no Auditório do Ibirapuera capturava cada detalhe e reforçava a grandiosidade da performance.

O jogo de violões em Rocha mais altaa melhor canção do disco Graça salvadora (que guiou o roteiro), estabeleceu um clima de comunhão e uma atmosfera ritualística de arrepiar. Com vocais mais contemplativos e um solo de gaita para lembrar seu ídolo do blues Sonny Boy Williamson, Plant já se preparava para a explosão de Divagarque veio na sequência para a alegria do público.

Se alguém ainda duvidava da potência vocal daquele eremita que dominava a noite no parque paulistano, seus agudos tratavam de dissipar qualquer incerteza. A primeira faixa do Led Zeppelin a ser executada na noite não poderia ser mais apropriada ao repertório sensível e místico. No recém-lançado Tornando-se Led Zeppelindocumentário institucional disponível na HBO Max, Plant afirma que a letra desta canção, sobre um viajante inquieto que segue estrada afora em busca de liberdade, retrata a história de sua vida.

Hoje, Plant está à frente do projeto Saving Grace, coletivo com quem ele gravou um álbum no ano passado Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Houve espaço para imersões isoladas na vasta carreira solo do cantor, inaugurada em 1982 e marcada por experimentações diversas. Chamando para vocêtema pesado dos anos 90, e a jazzística Deixe os quatro ventos sopraremdeste século, foram rearranjadas com coerência. O mesmo pode ser dito dos covers Está um lindo dia hojedo grupo californiano Moby Grape (citado por Robert como uma “enorme influência”), e Para as catracasuma joia pouco conhecida de Neil Young, que na voz de Suzi Dian invocou aquela sensação de desencanto típica do trovador canadense.

Durante a execução de Está um lindo dia hojeuma mulher invadiu o palco e foi rapidamente contida por um segurança. Plant agiu legal e mandou um beijo para a fã.

Os fãs de Zeppelin ficaram contentes com as presenças de Quatro varasfazer seminal Led Zeppelin IV (1971) e Amigosfazer Led Zeppelin III (1970), mas foram à euforia quando, antes de se despedir definitivamente, Plant, que por quase 1h30 subvertera os estigmas do rock n’ roll, cantou o clássico Rock and rolldespido de nostalgia e sublinhando aquele espetáculo com a seguinte ideia: o rock é muito mais do que uma união de estilos ou uma estética imutável, mas sim uma identidade fluida construída ao longo de décadas.

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