Lula da Silva mostra-se cada dia mais exultante com a narrativa eleitoral da “ameaça externa” que lhe caiu do céu por obra e graça de Donald Trump. Sem dispor de outras bandeiras tão promissoras, é a essa narrativa a que pretende se agarrar na campanha da reeleição. Mas, para isso, terá de preservar a “ameaça externa” como uma questão central que continue a mobilizar o País por mais 13 meses, até outubro de 2026.
Não faltará quem argua que, quanto a isso, o presidente não tem por que se preocupar. O próprio Trump se encarregará dessa parte. Bastaria ter em conta a provável reação de Washington a uma condenação de Jair Bolsonaro. Ou a possibilidade de que Trump fique tentado a intervir de alguma forma na disputa presidencial do ano que vem.
Não se pode descartar, contudo, a possibilidade de que Trump deixe de dar tanta atenção ao Brasil. Tendo aberto uma frente tão vasta de atritos, tanto no plano interno como no resto do mundo, terá de escolher suas batalhas. E, nesse quadro, seu atrito com Brasília pode vir a perder importância. É improvável, ademais, que o Departamento de Estado continue cego e surdo diante das evidências gritantes de como a hostilidade do governo Trump ao Brasil vem favorecendo a campanha de reeleição de Lula.
Se não puder mais contar com o Departamento de Estado para manter a “ameaça externa” como uma questão central no Brasil, Lula terá de partir para um jogo bem mais perigoso: preservar por conta própria a relevância da narrativa que escolheu como samba-enredo de sua campanha eleitoral. O que lhe exigirá muito mais empenho no que, de certa forma, já vem fazendo para manter as relações com o governo Trump suficientemente estressadas.

Lula terá de partir para um jogo bem mais perigoso: preservar por conta própria a relevância da narrativa que escolheu como samba-enredo de sua campanha eleitoral Foto: Ricardo Stuckert/Pr
Salta aos olhos que, tendo em vista a volatilidade da crise diplomática em curso, passar a fazer isso de maneira mais intensa e ostensiva envolverá um jogo com alto risco de que a tensão resvale para uma escalada séria e desnecessária de hostilidades, que acabe sendo claramente atribuível a imprudências do Planalto. O que, para o governo, seria um desastre eleitoral.
Por ora, eufórico com a narrativa da “ameaça externa”, Lula passou a se permitir um discurso populista escancaradamente irresponsável sobre o maior desafio que terá de enfrentar caso venha a ser reeleito, como bem se viu em Sorocaba na semana passada. E, hiperminoritário como está, vem tentando constranger o Congresso a aprovar um projeto de isenção eleitoreira de imposto de renda, que já tive oportunidade de dissecar aqui, em 31 de julho.
Mal parado.