Futurista fala sobre como planejar sem mirar o passado: ‘Ciclos de inovação estão mais curtos’

Futurista fala sobre como planejar sem mirar o passado: ‘Ciclos de inovação estão mais curtos’

‘Estamos delegando nossa capacidade de pensar e talvez nem percebamos’, diz futurista

Futurista Monica Magalhaes é um dos destaques do SP Innovation Week, evento que o ‘Estadão’ realiza em maio. Crédito: Edição: Larissa Kinoshita motion: Raul Carvalho, Coord de pós: Anderson Russo, Captação: Felipe Pedro, Produção: Vitória Schimdtz

Foto: Renato dPaula

Mônica MagalhãesFuturista e palestrante do São Paulo Innovation Week

Em um mundo “alucinado” por lançamentos tecnológicos, inovação quase sempre significa dominar novas ferramentas. Para a futurista Monica Magalhaes, essa visão é só parte da história. O verdadeiro desafio, diz ela, está na capacidade humana de imaginar futuros possíveis e tomar decisões hoje a partir das imagens do amanhã.

O trabalho de Monica é ajudar empresas e líderes a desenvolverem uma habilidade rara: pensar a longo prazo.

Em vez de planejar olhando para o retrovisor, ela propõe o inverso: começar pelo futuro desejado e traçar o caminho até ele. É como aquela pergunta comum em entrevistas de emprego: como você quer estar em 10 anos? As empresas também podem se debruçar sobre essa questão.

Monica Magalhaes, também especialista em computação quântica, é um dos destaques do São Paulo Innovation Weekevento que o Estadão realiza em maio na cidade de São Paulo e que tem como foco inovação, tecnologia e negócios.

A conferência deverá atrair 90 mil visitantes e terá uma programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais. Os ingressos já estão à venda e assinantes do Estadão têm desconto.

Na conversa a seguir, Monica fala sobre “alfabetização de futuros”, os riscos cognitivos da inteligência artificial e o papel da liderança em um mundo onde máquinas já começam a dividir tarefas com humanos.

E provoca: será que estamos preparados para usar a IA sem delegar demais nossa própria capacidade de pensar?

A inovação vai além de lançamentos tecnológicos. Qual é a noção mais completa do termo hoje?

Esse driver tecnológico é o que impulsiona mais inovação, tanto para as empresas quanto para o governo. Algumas inovações são impulsionadas por questões sociais e ambientais, mas o driver tecnológico hoje é o que mais impulsiona. A gente tem que ser provocado e provocar a ampliar essa visão.

Como formar líderes para serem inovadores?

A gente tem um grande desafio de conseguir pensar a longo prazo, fora da urgência do dia-a-dia. De acordo com o conceito de alfabetização de futuro, os ciclos de inovação dentro da sociedade estão cada vez mais curtos. Há cada vez menos tempo de implementar ações de impacto.

Na alfabetização de futuro, a gente compartilha ensinamentos que vêm do futurismo e do previsão (análise de futuros cenários possíveis). Esse profissional pesquisa, entende o contexto social, comportamental e as grandes tendências, o que vem depois. Eles compartilham metodologias com as lideranças para que elas possam entender movimentos que ainda vão acontecer.

E o futurismo?

O futurismo trabalha em outra parte, não tanto com as ferramentas, mas colabora na construção das imagens das coisas que ainda vão acontecer. O futurismo é um pouco mais distante, o previsão é um pouco mais curto, mas ambos trabalham a habilidade da liderança de pensamento de longo prazo.

Muitas empresas projetam o presente e o futuro a partir de um olhar para o passado. Quais são os riscos dessa estratégia?

Ainda é o comportamento mais comum. É a nossa cultura. Por que não provocar essa liderança a pensar diferente? Por que a gente não parte do futuro para o presente? Por que a gente não desenha aquilo que queremos ser e tomamos as decisões para traçar até esse caminho até lá? A gente faz isso na vida pessoal quando pensa “dentro de 10 anos, quero estar lá em determinado lugar”. Por que a gente não faz isso nos negócios?

Quando fazemos isso na vida pessoal, não ficamos presos ao passado…

Exato. A gente consegue se soltar mais. Ali, nós estamos livres para sonhar. Quebramos as barreiras. Existem muitas barreiras para a inovação no universo corporativo, como falta de recursos, de pessoas… Essas barreiras impedem que a gente imagine cenários possíveis, melhores para a empresa. É um exercício de mudança de cultura e de mentalidade para que a liderança imagine um future liberto dessas barreiras. Aí, a gente consegue pensar coisas muito maiores.

Qual deve ser o espaço da IA nas nossas vidas?

São várias transformações em várias áreas. Não consigo me imaginar vivendo sem meus assistentes de inteligência artificial. Também compreendo o quanto isso impacta do ponto de vista cognitivo. Você delega ou terceiriza uma habilidade que antes era humana. Para as empresas, o grande foco está na produtividade e na eficiência operacional.

Queria voltar à expressão ‘riscos cognitivos’. Ficaremos menos inteligentes?

Tem essa chance e ela é grande. É uma tecnologia que entra na área cognitiva do ser humano. Ela replica o modelo de pensar do ser humano. Será que todo mundo está percebendo que está delegando sua capacidade cognitiva? O cérebro é um músculo, você pode treiná-lo para correr uma maratona ou 5 km. Não acredito que o caminho seja bloquear a tecnologia. É muito mais sobre aprender a usar a tecnologia a nosso favor.

Existem gestores que já indicam que a IA ocupará espaços nos organogramas das empresas…

Não uso a palavra substituição para generalizar a presença e a aplicação da inteligência artificial. De fato, o que ela faz é colaborar com o humano não substituir. Tarefas estão sendo substituídas, mas não o humano. Essa substituição coloca medo nas pessoas. Medo de perder o emprego, de ser substituído. A gente precisa começar a descontruir essas barreiras.

Qual é o papel do líder nesse processo?

Acompanhar a evolução dessa tecnologia para usá-la ao seu favor no trabalho. O maior risco para os profissionais está em não se engajar com a tecnologia. Provavelmente ela será uma habilidade para os profissionais do futuro.

Quais são os recursos que se parecem com ficção científica hoje e que devem se tornar realidade?

Estamos caminhando em direção a uma inteligência artificial mais física, no formato de dispositivos, braços mecânicos, humanoides, carros autônomos, tudo que permite auxiliar o trabalho braçal do ser humano no dia a dia. Como é que o futuro chega? Começa na ficção científica. Algumas empresas consideram algumas ideias boas e tentar reproduzi-las em produtos.

Existe essa correlação?

Totalmente. Muitos produtores de Hollywood são futuristas no sentido de imaginar cenários de futuro. Esses primeiros adotantes (adotantes iniciais) se inspiram nesses filmes de ficção científica para criar seus produtos. Já existem humanoides retratados em comerciais que fazem parte do cotidiano das famílias. Isso significa que a tecnologia está mais próxima e sendo mais aceita.

Humanóides são uma tecnologia próxima para o futuro, mas ainda parece ficção científica. Mas os companheiros de IA, não. Em inglês, o termo é IA complementar. Com todos esses assistentes, todos nós já temos nosso companheiro de IA. Ele já está integrado ao nosso tecido social e nós nem percebemos.

Quais as diferenças entre China, Estados Unidos, Europa, locais onde a inovação já está consolidada?

Os Estados Unidos continuam sendo o grande inovador do mundo. O Vale do Silício (na Califórnia, nos EUA) ainda é o grande polo. Dentro das universidades, existem escritórios para registrar a propriedade intelectual. Eles valorizam a inovação do indivíduo.

A China costuma aperfeiçoar a inovação feita pelos Estados Unidos. Não é mais um país que só copia, como no passado. Há vários investimentos para que eles sejam os grandes protagonistas, como computação quântica e a energia sustentável. A inovação lá é muito colaborativa. Se você descobriu algo legal, sua obrigação é contar para a universidade e compartilhar. A China tem um investimento menor, mas com maior potencial colaborativo. Os europeus são os grandes reguladores.

E a América do Sul?

Ainda somos os grandes consumidores de tudo isso.

A sra. disse que a China compartilha mais suas descobertas. Como fazer com que a inovação seja mais coletiva?

Essa é uma ótima pergunta. Muito importante. Ainda vivemos a inovação centralizada nos negócios, atendendo ao interesse das empresas de gerar receita. De maneira geral, os algoritmos fazem a gente consumir mais. A gente vai evoluir, alcançar maturidade , para benefícios mais coletivos e que o impacto seja mais humano.

Por exemplo?

Que os dados sejam coletados a nosso favor. Uma inteligência artificial que consiga detectar um episódio de violência doméstica antes que ela ocorra, a partir da leitura das conversas, dos ambientes, dos gestos. Outra IA que avise sobre a propensão a uma doença crônica dentro de alguns anos. Em algum momento, essa tecnologia vai ser mais direcionada e a gente vai colher mais frutos de algo que seja para o lado humano, para a sociedade e menos em benefício dos negócios. A gente ainda não está nesse momento, mas é um processo de evolução.

Como integrar grupos excluídos, como jovens, mulheres e negros, nesse movimento de inovação?

A história conta que a tecnologia fica mais acessível. Mas isso não acontece da mesma forma num ambiente de trabalho. Quanto maior a régua tecnológica, você tem uma barreira de entrada cada vez maior. (Por exemplo) Os jovens que terminam o ensino médio e querem entrar no mercado de trabalho. Quanto maior o gap (lacuna) tecnológico, mais difícil é arrumar o primeiro emprego porque é preciso ter a tecnologia a,b,c no currículo. Isso me preocupa. Mas não o acesso aos dispositivos, mas do espaço de trabalho. É um desafio que não conseguimos resolver organicamente.

Como assim?

Quando queremos quebrar as estruturas, temos de atuar de forma direcionada e intencional. A inclusão não vai acontecer organicamente. Cada líder tem de olhar para esses projetos com tecnologias emergentes e atuar de forma direcionada. Todos os projetos tecnológicos precisam contemplar a sigla ESG (Ambiental, Social e Governança), o que ele está entregando para a sociedade.

Como alguém pode se tornar futurista?

Muitos futuristas vieram de áreas distintas, como antropologia e filosofia. Uma coisa que todos temos em comum é o desejo de se interessar pelo futuro como objeto de pesquisa. Ao mesmo tempo que assusta, o futuro inspira. Todas as sociedades são guiadas por imagens de futuro para se inspirar e caminhar naquela direção. Isso funciona para o indivíduo, para empresas e a sociedade.

A pessoa não precisa gostar apenas de tecnologia…

Se você gosta de meio ambiente e está preocupada com a crise climática, como podemos ter um planeta melhor no futuro? Se você gosta de pessoas, como imaginar uma sociedade melhor no futuro? No meu caso, como gosto de tecnologia, como posso criar e pensar um futuro tecnológico que seja bom para todos? Cada um vai construindo o seu caminho. A área de interesse é o que motiva a manter um passo em direção ao progresso.

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