‘A Vida de Chuck’, brilhante adaptação cinematográfica da obra de Stephen King

'A Vida de Chuck', brilhante adaptação cinematográfica da obra de Stephen King

A internet fica lenta, começa a falhar até cair de vez. Há congestionamentos nas ruas e notícias chegam de que parte da Califórnia foi engolida pelo mar. Tudo parece caminhar para o fim. Mais um filme-catástrofe? Em parte sim. Desse jeito começa A Vida de Chuck, de Mike Flanagan, tirado da novela de mesmo nome de Stephen King. Mas a história não vai seguir qualquer caminho previsível. Muito pelo contrário. Reserva muitas surpresas.

A começar pelo jeito de ser contada – de trás para frente. Vem dividida em três partes. E, nessa terceira, que vem antes das outras duas, começam a acontecer outras coisas tão misteriosas como assustadoras. Estranhos outdoors começam a aparecer, louvando o tal Chuck, que teria vivido 39 anos gloriosos. O mesmo anúncio surge no rádio ou na TV. Parece surgir do nada e em qualquer parte. Quem será? Celebridade não é, porque ninguém o conhece. Precisaremos percorrer as partes 2 e 3 para descobrir de quem se trata. Na verdade, o filme (e o livro também) é uma biografia escrita de trás para frente.

O filme vai mudando de tom à medida que avança. Se começa com esse apelo à estranheza (o que não é de admirar, vindo de Stephen King), passa a ser um relato de infância, depois de amadurecimento e retrato de vida adulta. Em meio a tudo isso, respira um sentido humanista, na afirmação de que não existem vidas pequenas, e que cada ser humano contém em si a humanidade toda.

Daí a importância, na trama, dos versos de Walt Whitman: “Eu me contradigo? Pois bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões”. É a lição que uma avó dá a seu neto, num dos melhores momentos do filme.

Sou imenso, sou profundo, sou múltiplo. Todos somos. Mas para onde vai toda essa amplidão quando cada um de nós salda sua dívida com a natureza? É o mistério mais profundo, a angústia mais densa, a da finitude de todos nós, o fim dessa multidão que em nós habita.

Curiosa é a maneira como Flanagan dá vida a essa reflexão sobre a morte através dessa existência mostrada de ordem inversa. Mas também por uma narração em off, às vezes solene, outras um tanto irônica, que lembra em mais de um ponto aquela de Barry Lyndon, o clássico de Stanley Kubrick adaptado de William Makepeace Thackeray (1781-1815).

Se Barry Lyndon era um aventureiro, Chuck era um especialista em contabilidade, cuja vida dificilmente daria um romance. Lembremos das palavras finais da obra de Thackeray: “Foi durante o reinado de Jorge III que estas personagens viveram e lutaram. Boas ou más, bonitas ou feias, ricas ou pobres, agora são todas iguais”. Memento mori que nos previne sobre as vaidades desta vida e ganha várias formas, de Thackeray a Stephen King.

A Vida de Chuck tem esse andamento lento, medido, filmado com todo o rigor. Há nele um toque nostálgico, em especial em algumas partes, como a do baile, em que Chuck revela seus dotes para a dança com uma partner improvável. É outro dos melhores momentos.

A despeito desses pontos altos, é o conjunto que se segura nesse tom melancólico e meditativo. Constantemente contrapõe a dimensão da vida humana à imensidão do cosmo. Céus estrelados não faltam à obra. Mas não é uma grandiosidade que humilha e esmaga, já que o homem contém em si toda a humanidade. Mas mesmo essa humanidade não passa de formiguinha diante do universo.

Enfim, em A Vida de Chuck há o tempo todo uma espécie de pensamento que não se expressa de todo, mas impregna o filme dessa aura filosófica. A exatidão das formas, as cores, o andamento, tudo isso leva a trama a uma dimensão onírica. Como se sonho e pensamento se completassem.

A Vida de Chuck é um filme que dá o que pensar, também porque joga com antinomias – diante do fim, o mistério do cosmos em sua vastidão. E, contra essa dimensão incomensurável, o mistério de um pequeno quarto, no sótão da casa da família, local onde as premonições podem acontecer. Quem for dotado do dom da curiosidade não sairá do cinema insatisfeito.

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