Por que é mais difícil e arriscado para Trump repetir no Irã o que fez na Venezuela

Por que é mais difícil e arriscado para Trump repetir no Irã o que fez na Venezuela

As elites políticas, militares e religiosas iranianas estão entrelaçadas e operam em um sistema construído para sobreviver às ameaças externas e às divisões internas. É possível encontrar rachaduras na estrutura institucional da República Islâmica, mas é muito mais difícil explorá-las e, como foi feito na Venezuela, cooptar algumas figuras-chave para obter um resultado previsível. O governo do Irã pós-Khamenei pode ser mais fraco e mais suscetível a pressões externas, ainda mais em um contexto de crise econômica e insatisfações populares à flor da pele, mas se o efeito dessa debilidade for uma fragmentação do poder político, há o risco de uma espiral de caos como a que se viu no Iraque e na Síria nos últimos anos. A fragmentação do poder no Irã é um perigo a ser considerado pois colocaria armas nas mãos de atores não necessariamente racionais e com agendas difusas.

Mesmo se o regime controlado pelos aiatolás conseguir se manter coeso, a segurança no Oriente Médio, com consequências graves para a economia global, está ameaçada. O poderio militar iraniano é incomparavelmente maior que o da Venezuela, e essa diferença é potencializada pela geografia. O estreito de Ormuz, que dá acesso ao Golfo Pérsico, por onde passam 20% das exportações de combustíveis fósseis do mundo, pode até não ser “fechado” pelo Irã, mas na prática se torna uma passagem muito perigosa para os petroleiros, o que tende a elevar o preço do barril de cru e a encarecer o frete marítimo global. Alguns dos maiores produtores do mundo, como Catar, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein, Iraque e Emirados Árabes Unidos, estão ao alcance dos mísseis iranianos, como visto ao longo do fim de semana.

Ao contrário da Venezuela, o Irã tem também uma capacidade de retaliação que vai além de seu arsenal bélico e de seus quase 1 milhão de soldados e reservistas. Por meio do Hezbollah, no Líbano, de milícias houthis no Iêmen e de grupos armados xiitas no Iraque e na Síria, o Irã pode incendiar o Oriente Médio. A fagulha consiste em outro elemento ausente na realidade política venezuelana: a motivação religiosa. O regime iraniano descreve o confronto com os Estados Unidos (e com Israel) como uma guerra santa. “Uma declaração de guerra aberta contra os muçulmanos, e particularmente contra os xiitas, em todos os lugares do mundo.” Assim o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, definiu a morte do aiatolá Khamenei. O Irã já promoveu e financiou atentados terroristas no exterior no passado. Acuado, poderia repetir a tática diretamente ou estimular grupos associados ou lobos solitários a cometê-los.

Não é de hoje que o Irã é um fator de instabilidade para o Oriente Médio e de insegurança para o mundo. Mesmo se não fosse, apenas a opressão sobre seu próprio povo já seria suficiente para considerar a queda do regime um objetivo a ser comemorado. Mas ainda não está claro se é isso o que vai acontecer. Trump pode até saber como sua operação militar no Irã começou e o que pretende com ela, mas não tem como saber como vai terminar. O Irã não é a Venezuela.

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