UM Guerra do Peloponeso talvez ensine algo desconfortável ao século 21: o crescimento econômico de uma potência pode gerar medo suficiente para transformar comércio e convivência em rivalidade estratégica. Enquanto Atenas cresceu, negociou e enriqueceu, Esparta observava. Até que o avanço de uma passou a alterar o equilíbrio do mundo grego. A história raramente se repete. Mas grandes disputas entre potências quase sempre acabam misturando comércio e poder.
Nos nossos dias estamos assistindo a uma grande rivalidade entre os EUA sim China que se enfrentam em várias frentes.

O encontro que irá ocorrer na próxima semana entre Donald Trump e Xi Jinping virou muito mais do que uma reunião bilateral Foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP
Diferentemente de outros momentos da história, nunca houve uma rivalidade entre grandes potências com tamanha interdependência econômica e tecnológica. O fato é que o mundo moderno foi construído de forma que nenhum dos dois consegue funcionar plenamente sem o outro.
Esse é o contexto mais perigoso e original do momento atual. Justamente por isso o encontro que irá ocorrer na próxima semana entre Donald Trump e Xi Jinping virou muito mais do que uma reunião bilateral.
A discussão dominante é se o mundo está entrando numa nova forma de “coadministração conflitiva” entre os dois países – uma espécie de G-2 informal. O aspecto interessante é que aparentemente está havendo menos interesse em “quem vencerá”, mas, em algo diferente – o risco de que o mundo fique excessivamente dependente das decisões, humores e disputas entre duas potências que já controlam muitos aspectos de nossas vidas. A discussão não é mais: “quem domina o mundo”. Mas: “quem organiza cada pedaço dele”.
O mais provável é que tenhamos que conviver com um G-2 não clássico, mais competitivo – sem aliança, nem governança conjunta formal ou confiança mútua. No entanto, haverá reconhecimento implícito de que nenhum grande tema global pode ser resolvido sem os dois.
Esta nova configuração significaria um menor espaço para organismos multilaterais, maior volatilidade econômica, fragmentação da globalização, corrida tecnológica mais agressiva e com a IA acelerando todo o processo.
Nesse cenário o Brasil pode ganhar ou perder, tudo depende da estratégia que construirmos. Podemos ter ganhos nas exportações agrícolas e minerais. Também, podemos ter um papel importante em energia, no petróleobiocombustíveis, energia renovável, minerais críticos. Até mesmo atuando como um país “ponte” — dialogando com Washington, Pequim, Brics e com o ocidente no geral. Mas, com riscos enormes pela pressão potencial para escolha de um dos lados.
O problema do novo G-2 não é apenas o poder concentrado. É descobrir que a estabilidade global passou a depender da relação entre dois líderes imprevisíveis.