Richard Dawkins publicou um artigo em que afirma acreditar que sistemas de IA são conscientes. Dawkins, um dos mais respeitados biólogos vivos, ateu e reducionista ferrenho, passou dias conversando com o sistema de inteligência artificial Claude e, ao final, disse a Claude: “Você pode não saber que é consciente, mas você é.”
Será que sabemos o que estamos perguntando quando perguntamos se uma IA é consciente? Acredito que não, pois ainda não temos uma definição do que é a consciência. E sem essa definição não temos como julgar se Claude é consciente.
Durante séculos, o conceito de “vida” pareceu intuitivamente claro. Então a biologia encontrou os vírus — entidades que se replicam usando a maquinaria de células hospedeiras, mas que fora delas não metabolizam, não crescem, não respondem a estímulos. Seriam vivos? A pergunta forçou biólogos a admitir que “vida” era um conceito com bordas mal definidas, um conjunto de propriedades que podem ou não existir num mesmo ser vivo.

Existem dúzias de teorias sobre o que é a consciência, mas nenhuma delas comprovada experimentalmente. Foto: SiriToshi/Adobe Stock
Sim, todos nós sentimos que estamos conscientes, mas você sabe o que é sua consciência? Aqui vai um experimento simples. Olhe para frente e note a riqueza de seu campo visual — cores, formas, tudo presente em uma cena que muda com o tempo, como um filme. Agora, tente descrever o que está na borda do seu campo de visão, lá onde a visão termina. Numa tela de cinema a borda é clara e observável, mas você consegue descrever a borda do seu campo de visão? É impossível observar a borda, como é impossível observar que existe um buraco no centro do seu campo de visão, a fóvea, onde nossa retina não possui células receptoras de luz.
Hoje sabemos que o campo visual que experimentamos é uma criação do cérebro. Você não está vendo o mundo, está vendo a versão que o cérebro construiu para você a partir das informações vindas da retina e extraídas da memória. As ilusões de óptica confirmam isso. Esse é um exemplo concreto de algo estranho: não sabemos, com precisão, o que é a nossa própria experiência subjetiva. Quanto menos o que é a consciência que a sustenta.
Quando filósofos e cientistas tentam definir consciência de forma operacional — isto é, de uma forma que permita testá-la e medi-la — chegam inevitavelmente a um impasse.
A teoria mais precisa é a Teoria da Informação Integrada, do neurocientista Giulio Tononi. Ela define consciência como uma quantidade mensurável que expressa o grau de integração de informação num sistema. Tem a elegância das boas teorias físicas, mas é impossível de medir na prática. Já a Teoria do Espaço de Trabalho Global de Stanislas Dehaene propõe que consciência é o que ocorre quando informação é transmitida a um espaço cognitivo acessível a múltiplos processos mentais. Tem a vantagem de gerar previsões testáveis. Mas descreve o mecanismo de acesso à informação, não necessariamente experiência subjetiva.
Existem dúzias de teorias sobre o que é a consciência, nenhuma delas comprovada experimentalmente. Ou seja, a ciência ainda não é capaz de definir e medir a consciência.
O filósofo Ned Block separou dois conceitos que costumamos confundir. O primeiro é a “consciência de acesso”, a capacidade de um sistema de disponibilizar informação para a criação de um relato verbal ou escrito. É o que observamos quando perguntamos “você sabe que está vendo um gato?” e o sistema responde corretamente. O segundo é a “consciência fenomenal”, nossa percepção de que somos conscientes, a sensação de que existe um eu (uma espécie de homúnculo) dentro do nosso cérebro observando o mundo e a nós mesmos.
Quando Dawkins conversa com Claude, e fica convencido de que ele é consciente, o que Dawkins está observando é a consciência de acesso em seu nível mais sofisticado. Claude tem acesso a informações sobre si mesmo e as relata com coerência admirável.
Mas a consciência fenomenal permanece completamente inacessível ao teste. E aqui está o ponto crucial: ela também permanece inacessível quando interagimos com outros humanos. É o problema das outras mentes. Assumimos que outros humanos são conscientes por analogia com nossa própria experiência e pela semelhança biológica, mas não observamos diretamente a consciência de outros seres humanos. É o que acontece quando conversamos com Claude. Com a IA, essa analogia deixa de funcionar pois do outro lado existem chips e não neurônios, e a fragilidade dessa analogia fica aparente.
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Consciência pode ser um conceito que agrupa fenômenos distintos sem unidade real. A riqueza subjetiva da experiência visual, a autoconsciência reflexiva, a sensação de dor, o senso de continuidade temporal — tudo isso pode não ter um único substrato ou mecanismo. E se for assim, a pergunta “Claude é consciente?” pode ser tão mal formulada quanto perguntar se um vírus é vivo antes que tivéssemos as ferramentas conceituais para decompô-la adequadamente.
Não estou argumentando que Claude é ou não consciente. Estou argumentando que não sabemos, e que esse não-saber é mais profundo do que a pergunta sugere. Não é a ignorância temporária que precede uma descoberta. É uma ignorância estrutural que precede a formulação adequada do problema.
Antes de decidirmos se sistemas como Claude são conscientes, precisamos de um programa científico e filosófico para entender o que é a consciência humana. E, sem saber, o que é consciência vai ser impossível decidir se sistemas de IA são conscientes.
Mais informações: Quando Dawkins conheceu Claude. Esta IA poderia estar consciente? https://unherd.com/2026/05/is-ai-the-next-phase-of-evolution/