Há cerca de quatro anos, em meio à Disputa presidencial de 2022publiquei neste mesmo espaço um artigo desalentado cujo título já dizia quase tudo: A cada reeleição, nova devastação. É triste constatar que, nesse aspecto, pouco ou nada mudou. O presidente que agora pretende se reeleger já não é mais de direita e, sim, de esquerda. Mas o clima de “vale tudo” continua o mesmo. Ninguém tem a menor dúvida de que, mais uma vez, o titular está pronto para “fazer o diabo” para ser reeleito.
Alarmado com o desempenho pouco promissor do presidente Lula nas pesquisas de intenção de voto, o governo parece a cada dia mais atarantado, em frenética improvisação de amplo leque de medidas que possam compensar a evolução desfavorável do que imagina serem os determinantes de sua popularidade.

O choque do petróleo causado pela guerra no Oriente Médio desafia os esforços eleitoreiros Foto: Omar Sanadiki/AP
Muita munição já foi gasta em farta distribuição de benesses que, no final das contas, mostraram-se pouco ou nada eficazes. O melhor exemplo foi a impensada aposta nos efeitos eleitorais favoráveis que poderiam advir da demagógica isenção de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF)concedida no apagar das luzes do ano passado a contribuintes com renda mensal entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. Uma medida perdulária que, para frustração do governo, acabou não tendo qualquer efeito mensurável nas intenções de voto no presidente no Nordeste, simplesmente porque grande parte dos eleitores nordestinos não chega a auferir renda mensal tributável na faixa beneficiada pela isenção.
A constatação relativamente tardia de que tanta munição havia sido desperdiçada já trouxe, por si só, grande aflição à campanha da reeleição. Os desdobramentos econômicos do conflito no Golfo Pérsicoa partir de março, deram ao governo razões adicionais para a apreensão.
No afã de evitar a todo custo que elevações de preços de derivados de petróleo, gás, fertilizantes e alimentos cheguem a ser sentidas por potenciais eleitores do presidente, o plano de jogo passou a ser mantê-los em uma ilha da fantasia. E conceber todos os artificialismos que se fizerem necessários para impedir que, até outubro, preços mais altos se convertam em descontentamento com o governo. Qualquer manipulação que possa evitar, escamotear ou postergar elevações de preços passou a ser vista com bons olhos.
Como há pouca esperança de que os efeitos da crise no Golfo Pérsico estejam prestes a desaparecer, o frágil castelo de preços eleitoreiros que vem sendo armado pelo governo começa a inspirar cuidados. O final de outubro parece preocupantemente longe.