E se a história da Paixão de Cristo tivesse como trilha sonora ritmos latinos e ibéricos? O caminho à cruz ao som da música cubana; a crucificação ilustrada pelo samba; Judas acompanhado pelo flamenco; a ressurreição trazendo de volta a influência da música brasileira?
Foi o que fez o argentino Osvaldo Golijov ao receber o convite para escrever uma paixão – narrativa da morte de Cristo e de seu renascimento – no final dos anos 1990. Bach compôs duas delas, as monumentais paixões segundo São João e São Mateus. E a Internationale Bachakademie quis marcar os 250 anos de morte do autor encomendado novas peças do gênero.
Golijov então se firmava como autor no cenário internacional. E sua resposta foi imediata: não. “Eu disse a eles que deveriam pedir a um compositor cristão e não a um judeu”, ele lembra em conversa com o Estadão. Mas o maestro Helmut Rilling, diretor da academia, insistiu. E deu a ele liberdade para tratar o tema da maneira que quisesse, de acordo com suas percepções. Nasceu assim a Paixão Segundo São Marcosque estreou em 2000 e, vinte e seis anos depois, terá sua estreia brasileira na sexta, 3, e no sábado, 4, no Teatro Municipal de São Paulo, com a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Paulistano.

O compositor argentino Osvaldo Golijov Foto: Yoni Golijov/Divulgação
Rilling é autoridade incontestável na música de Bach. Mas, mesmo com sua chancela, Golijov demorou um ano para começar a compor. “Não era como escrever uma sonata. Havia todo um universo cristão com o qual lidar. E levou um tempo até que eu me sentisse totalmente aberto.”
A partir daí, ele tomou algumas decisões. Usaria como base o Evangelho de São Marcos“o menos filosófico e mais preocupada com os fatos quase uma narrativa jornalística”. Pediu a um de seus alunos nos EUA que lhe desse aulas de catequismo. E encontrou o caminho em Rembrandt. “Eu me dei conta de que ele, quando pintava judeus, o fazia de maneira mais profunda que os próprios judeus. Minha obra deveria nascer, assim, da minha condição de outsider.”
“A pergunta que me coloquei foi: como essa história se reflete no lugar de onde venho? Foi assim que busquei as referências musicais brasileiras, da tradição iorubá, dos orixás, que encontrei a santería cubana.” O texto vem do Evangelhomas também dos pequenos trechos nas papeletas que pessoas entregam às pessoas no metrô, pedindo em retorno ajuda financeira. “Pedi aos meus familiares que fossem ao transporte público de Buenos Aires coletar esse material para mim.”
Duplamente outsider
O crítico americano Thomas May afirmou, sobre a peça, que Golijov é duplamente outsider: um judeu escrevendo sobre uma história do cristianismo e um latino-americano compondo uma peça a partir da tradição europeia. Golijov aceita a provocação. “Como compositores de fora da Europa, essa é uma questão antiga. Essa mistura… Para fazê-la, devemos estar em um lugar no qual ela é natural, espontânea. Estou certo de que minha música é melhor quando não tenho medo da Europa. Mas é um processo que leva tempo, sempre.”
E como sua criação mudou no quarto de século desde que a Paixão foi escrita? “Naquele momento, acho que eu era mais ignorante e corajoso. Quando você começa a conhecer de fato a tradição, e se apaixona por ela, ela pesa mais”, ele diz. E hoje? “Tenho trabalhado para recuperar essa coragem, essa liberdade. Para recuperar uma certa cara de pau.”
Serviço
- A Paixão Segundo São Marcos
- Onde: Teatro Municipal de São Paulo
- Quando: sexta, 3, e sábado, 4, às 17 horas
- Ingressos: de R$ 13 a R$ 100