Chega a ser impressionante pensar que Manual Prático da Vingança Lucrativalonga que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 26, não traz praticamente nada de novo. A história, a atuação do protagonista Glen Powella seleção musical: tudo neste longa-metragem dirigido e roteirizado por John Patton Ford é uma reciclagem de ideias e propostas que já foram usadas anteriormente. E tudo bem – o filme ainda consegue ser bastante divertido.
A trama acompanha um homem (Glen Powell) que quer matar sete parentes para colocar as mãos em uma herança bilionária após ser renegado pela família e viver na miséria com a mãe, uma outra pobre coitada. Diz ser apenas uma “adaptação livre”, feita por Ford, da célebre comédia de Robert Hamer, As Oito Vítimasde 1949, que por sua vez é livremente baseada no romance Classificação de Israel: a autobiografia de um criminoso (1907), de Roy Horniman. Nada disso. É uma história quase literal, apenas com um torção novo aqui e ali.
Ou seja: é algo que já foi contado e celebrado, mesmo que 80 anos antes. Além disso, Glen Powell, que faz o personagem que foi de Alex Guinnessrepete o mesmo papel pela quarta vez. Já viveu um agente infiltrado no brilhante Assassino por Acasoum esportista fingindo ser outra pessoa na série Poderes do Chade e, depois, viveu um homem fugindo do sistema com diferentes identidades no fraquíssimo O Sobrevivente. Agora, o astro faz uma mistura dessas três histórias, trazendo pouquíssimo de novo – seja na atuação ou até mesmo na personalidade do ator, que parece repetir o mesmo tipo de papel sempre.

Glen Powell repete o mesmo papel pela quarta vez em ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ Foto: Filmes Diamante
Repetir com criatividade
No entanto, mesmo com esse sentimento de história repetida, Manual Prático da Vingança Lucrativa diverte de maneira inusitada. Pra começo de conversa, Ford sabe usar muito bem os recursos que tem à disposição – para além dessas questões envolvendo Powell, que também assina no longa-metragem como produtor executivo, o filme também completa seu elenco com nomes como Margaret Qualley, Ed Harris, Bill Camp e Topher Grace.
Esse grupo de atores, mesmo aparecendo menos, consegue jogar a qualidade da produção lá pra cima. A sensação é que todos os personagens, com exceção de um aqui e outro acolá, são pessoas terríveis, que pensam apenas no dinheiro, e criam um clima divertido e inusitado em cena. Qualley, por exemplo, vai revelando facetas inesperadas conforme o filme avança, brincando bastante com a sensualidade da personagem e toda a força que ela acredita ter sobre Becket Redfellow, esse personagem de Powell. Já Harris, por exemplo, já traz um tom mais sombrio, ou até mesmo bizarro, tornando tudo mais complexo.
O diretor e roteirista John Patton Ford, porém, é o nome a se ficar de olho. Ele repete o bom desempenho que teve em seu longa de estreia, Emily, A Criminosa. Sabe dar ritmo e, principalmente, sabe como contar a história de um personagem que mergulha no crime, mas que ainda é reconhecido e compreendido pelo público. Emily, vivida por Aubrey Plaza, ainda é mais interessante do Becket, mas há conexões entre as atuações e que funcionam bem. Você entende o porquê daqueles crimes e, mesmo de maneira torta, torce por ele.

Glen Powell em ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ Foto: Filmes Diamante
Para estética pop da coisa, mesmo nessa toada de repetição, também deixa tudo mais leve e interessante sem se render aos modismos baratos. Exemplo é o uso da música Leve-me de volta ao Piauíde Jucas Chaves, que aparece no trailer e em um momento do filme. De novo sai de algo que não é original, já que embarca no sucesso que a canção fez com Ainda Estou Aqui e nas redes, mas abraça o popular ao mesmo tempo em que traz algo de personalidade. É a principal faceta de Ford: ele sabe repetir fórmulas e ainda não soar batido.
Manual Prático da Vingança Lucrativaassim, surpreende por conseguir driblar questões estruturais, como essa repetição excessiva, e é gostoso assistir. Pode ficar no limite do aceitável para alguns, mas não dá para esconder aquele leve sorriso que chega ao final, quando a história se ajeita, o principal reviravolta na história se revela e, enfim, as coisas se encaixam. Um típico filme sobre trapaceiros, mas com humor, boas sacadas e uma direção firme.