Ancelotti fala sobre Neymar, culinária e cinema em exclusiva ao Estadão
Técnico da seleção brasileira recebeu o Estadão direto do museu da CBF, no Rio de Janeiro. Crédito: TV Estadão
Carlo Ancelotti, mesmo apontado como um dos técnicos mais vitoriosos da história do futebol moderno, revela, em seu mais novo livro autobiográfico “O Sonho: quebrando recorde de vitória na Champions League”, que, após se aposentar dos gramados, em 1993, não tinha ambição de passar o resto da vida profissional comandando do banco de reservas. “Sempre me vi, antes de tudo, como um jogador que por acaso virou técnico”, escreve na obra, desenvolvida ao lado do jornalista norte-americano Chris Brady e com lançamento mundial anunciado nesta quinta, 25, pela Editora Planeta.
No livro, com 256 páginas e dividido em quatro partes, o atual comandante da seleção brasileira conta bastidores inéditos, e revelados em primeira mão pelo Estadão, das mais de 200 partidas que disputou em campeonatos continentais europeus, além das conquistas que teve como ex-jogador e treinador da Champions League (sete no total). Algumas histórias ainda são pouco conhecidas do grande público, como quando, ainda com 15 anos, o ex-centroavante da base do Parma teve que disputar o jogo mais inusitado de sua vida: uma partida, organizada perto da casa onde os pais de Carleto moravam para reconciliar dois dos maiores diretores de cinema italianos: Pier Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci.

Capa de “O Sonho: Quebrando o recorde de vitórias da Champions League”, de Carlo Ancelotti Foto: Reprodução/Editora Planeta
O relacionamento de Ancelotti com os brasileiros
Se tem algo que Ancelotti sempre valorizou ao longo de sua trajetória de cinco décadas no futebol, é a influência de jogadores brasileiros que ele teve tanto quanto jogador quanto como técnico de clubes. E a relação é longa, iniciada nos tempos em que defendeu a Roma, entre 1979 e 1985. “O time da temporada 1983-1984 tinha dois brasileiros que me marcaram muito: Toninho Cerezo, que era mais guerreiro e um motor incansável, além de Paulo Roberto Falcão, que era brilhante na armação e um verdadeiro líder em campo. Quando ele chegou, não entendia por que treinávamos tanto sem a bola. Talvez isso tenha acontecido em vários lugares da Europa à medida que os sul-americanos começaram a chegar em maior número, mas foi na Roma que, pela primeira vez, fui influenciado diretamente por um gênio brasileiro”.
Em O Sonho, Carlo também divide bastidores deliciosos com o leitor da vivência dele com jogadores brasileiros, como Dida, Rivaldo, Kaká, Vinícius Júnior e Rodrygo. No novo livro, ele recorda que, em 2002, tomou a difícil decisão de colocar Rivaldo, titular absoluto pelo Brasil e recém campeão do mundo, no banco, algo que o meio-campista nunca tinha experimentado. “Eu já tinha jogadores brasileiros no plantel do Milan, como Serginho, Roque Júnior e Dida, quando recebi Rivaldo, que não havia feito a pré-temporada completa e precisava se condicionar”.
Carlo relembra que, em meados de setembro de 2002, o Milan tinha um jogo fora de casa contra o Modena, e ele teve que dizer que manteria Rivaldo no banco. “Foi um choque para ele. “Rivaldo nunca ficou no banco”, ele explicou. “Tudo bem,” eu disse a ele, “sempre há uma primeira vez, e agora é o momento certo para ser a primeira. A mensagem não pareceu surtir efeito. Ele simplesmente se levantou e foi para casa. Nos entendemos algum tempo depois e o jogador foi peça importante na conquista da Champions, em 2003”.
Ancelotti relembra os tempos de ‘vacas gordas e magras’
Ancelotti faz questão de reforçar, na nova obra de memórias, que ela também é a história de todas as ocasiões, muito mais numerosas, em que a busca por ser campeão europeu escapou por entre os dedos, e que, nesse aspecto, o futebol não fica tão distante da vida real. “A verdade é que, na maior parte do tempo, a gente não vence. E espero ser humilde o bastante para reconhecer que a derrota também pode ser uma grande professora”, reflete.
Ele aponta, ao longo dos primeiros capítulos, dois dos treinadores com quem mais aprendeu e pôde desenvolver as habilidades de “maestro”, seja no meio de campo quanto “regendo” dez diferentes clubes europeus que treinou, entre 1995 e 2025: o sueco Nils Liedholm e o italiano Arrigo Sacchi. Segundo Carlo, foi com Nils que ele aprendeu, aos 20 anos, a trocar a posição de centroavante pela de um meio campista habilidoso, além de aspectos aprendeu como a paciência, senso de humor, e a flexibilidade sem perder a firmeza.
Já com Sacchi, treinador de Ancelotti no Milan, entre 1987 e 1991, ele ganhou a confiança e pôde desenvolver ainda mais sua inteligência tática dentro e fora de campo. “Segundo Silvio Berlusconi, que era contra minha contratação por achar que eu não conseguiria jogar mais em alto nível por conta das lesões nos meniscos, eu era um maestro que não sabia ler partituras. Sacchi o tranquilizou, dizendo que me ensinaria a reger. Na prática, isso significava chegar uma hora mais cedo para treinar com alguns garotos das categorias de base. Ele disse ao chefão milanista na época que, dessa forma, daríamos conta de tudo”.
De acordo com o treinador do Brasil, Sacchi ainda o defendeu de questionamentos de que Carlo não conseguia mais se movimentar durante os jogos. Sacchi respondeu a Berlusconi e a diretoria que a preocupação dele seria se o então jogador tivesse perdido parte da inteligência que sempre demonstrou em campo, e que isso era o que bastava. “Ele não corre rápido, ele pensa rápido”, disse na época.
Ao lado de Sacchi, Ancelotti viveu a glória de conquistar, por duas temporadas seguintes, a conquista da Champions League pelo Milan, entre 1988 e 1990. Eles também viveram, agora dividindo o comando da seleção italiana, o que ele define como tempo das “vacas magras” (1991-2000) de conquistas continentais e mundiais, o que inclui uma das maiores derrotas da história da Azzura: a perda, nos pênaltis, da decisão da Copa do Mundo de 1994 para o Brasil. “Se aquele momento me ensinou algo, é que o futebol se joga tanto com a mente quanto com os pés. Foi uma lição importante que levei comigo para minha carreira de técnico”.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira Foto: Pedro Kirilos
E ela começou logo no ano seguinte, em 1995, à frente do Reggiana, equipe da cidade em que nasceu, Reggiolo, no norte da Itália, e onde deu os primeiros passos como jogador de futebol, no início dos anos 1970.
Confira outros trechos inéditos do livro da longa relação de Carlo Ancelotti com o futebol brasileiro:
Final da Copa do Mundo de 1994
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“Assim, minha carreira como técnico começou no topo do futebol, com a Azzurra. Nossa missão pelos dois anos seguintes era conseguir a classificação para a Copa do Mundo da FIFA de 1994, que seria sediada nos Estados Unidos. E conseguimos, figurando em um grupo bastante equilibrado que incluía a Suíça, que se classificou conosco, além de Portugal e Escócia. E assim me vi atuando como assistente técnico numa seleção que levava à Copa nada menos que oito dos meus antigos companheiros Rossoneri. Além disso, eu tinha jogado com outros atletas da seleção na Copa anterior. O curioso é que não me lembro de minha entrada na comissão técnica ter criado qualquer dificuldade. Talvez tenha sido útil para Sacchi ter ao seu lado alguém que conhecesse os jogadores de um modo diferente do dele, alguém que pudesse servir de ponte e amortecedor. O torneio foi incrivelmente bom, mas não o bastante.
Liderada pelo talento de Roberto Baggio, a Itália chegou até a final, realizada em Pasadena, na Califórnia. A partida contra o Brasil foi extrema mente tensa e terminou sem gols após duas horas. E assim, pela terceira vez na minha carreira – contando com a final da Copa Europeia de 1984 e o tenso confronto em três jogos contra o Estrela Vermelha, em 1989 –, me vi nervoso, assistindo da beira do campo enquanto o drama de uma disputa por pênaltis se desenrolava. Na quele dia, nossos pés não estavam calibrados. Lembro de pensar que era impossível que Baresi e Baggio, os dois grandes titãs da quele time, pudessem errar o alvo. Mas eu estava enganado. Em algum lugar da Califórnia, ainda estão procurando a bola que meu antigo capitão de clube mandou por cima do travessão. Se aquele momento me ensinou algo, é que o futebol se joga tanto com a mente quanto com os pés. Foi uma lição importante que levei comigo para minha carreira de técnico”.
Relação com Rivaldo
“No início dos anos 2000, eu já tinha jogadores brasileiros no plantel do Milan, como Serginho, Roque Júnior e Dida, quando recebi Rivaldo, em 2002. E tive que lidar com a situação inédita de colocar o habilidoso meio-campista, que já era campeão do mundo, no banco pela primeira vez. É claro que fiquei muito feliz com a chegada dele. Tudo fica melhor com um jogador como ele, óbvio. O desafio era manter todos os jogadores felizes individualmente enquanto também tentava fazê-los funcionar como um time. Rivaldo não teve uma pré-temporada completa nem uma preparação adequada para a partida, então não jogou.
Duas semanas depois, ele estava pronto para estrear como reserva. Mas então, no começo da temporada doméstica, em meados de setembro, tínhamos um jogo fora de casa contra o Modena, e tive que dizer que o manteria no banco. Foi um choque para ele. “Rivaldo nunca ficou no banco”, ele explicou. “Tudo bem”, eu disse a ele, “sempre há uma primeira vez, e agora é o momento certo para ser a primeira.” “Não, não,” ele disse. “Rivaldo não fica no banco.” Eu era o chefe, e tive que lembrá-lo disso. “Rivaldo, você vai para o banco”, eu disse. A mensagem não pareceu surtir efeito. Ele simplesmente se levantou e foi para casa. Nos entendemos algum tempo depois e o jogador foi peça importante na conquista da Champions, em 2003”.
Relação com Kaká
“Quando vi Kaká pela primeira vez, em 2003, bem-vestido em sua chegada a Milão, ele parecia um estudante universitário, de óculos. Mas quando o vi jogar fiquei sem palavras. Eu não sabia como descrever o que estava vendo. No seu primeiro treino, ele enfrentou Gattuso e depois Nesta, e nenhum dos dois conseguiu pará-lo. Tiramos os óculos de estudante dele, colocamos um uniforme de futebol, e ele virou um fenômeno. Era como o Superman saindo da cabine telefônica. Ele jogou 45 partidas naquela temporada (2003-2004), tantas quanto Seedorf e Gattuso no meio-campo. Ninguém no elenco jogou mais. Admito que sua chegada recriou a mesma dor de cabeça que eu tive na temporada anterior ao tentar encaixar Rivaldo. A diferença é que Kaká estava a caminho da grandeza, enquanto Rivaldo já não estava mais em seu auge. Havia algo na maneira como Kaká se movia ao redor da área que me lembrava Michel Platini”.
Negociações para assumir a seleção
“As coisas iam bem. No fim do ano, consolidamos nossa posição na liderança da La Liga, e assim permaneceríamos até o fim da temporada. A diretoria do clube se sentiu confiante o bastante para me oferecer uma extensão de contrato por mais dois anos, além de 2024. A imprensa chegou a falar sobre a possibilidade de eu assumir a seleção brasileira. Claro, uma oportunidade como essa interessaria a qualquer viciado em futebol, mas, assim que o Real Madrid fez a proposta, a conversa sobre o Brasil cessou….
… Minha jornada na Champions League, daquele primeiro dia assistindo à Roma, em 1985, perder nos pênaltis até o jogo contra o Arsenal, em 2025, me proporcionou momentos maravilhosos. Mas toda fase da vida chega ao fim para que uma nova possa começar. Quão sortudo eu sou por saber que a minha próxima fase vai incluir o sonho de vencer a Copa do Mundo com a maior seleção da história das Copas? Meu trabalho agora é fazer o Brasil campeão de novo; aceito essa missão, e estou convencido de que podemos alcançá-la. Para isso, preciso aproveitar ao máximo a imensa qualidade que o Brasil tem, reunindo harmonicamente esses talentos.
A Copa do Mundo é diferente até mesmo da Champions League; é um sentimento com um país inteiro por trás, e é por isso que sempre chamou minha atenção. É uma honra liderar a Seleção. Sempre tive uma conexão com o Brasil por intermédio dos jogadores com quem atuei, como Falcão e Cerezo na Roma; e com aqueles que treinei, como Ronaldo, Rivaldo, Kaká, Marcelo, Cafu, Casemiro, Richarlison e, mais recentemente, Vinícius Júnior, Rodrygo, Militão e Endrick. No dia em que cheguei ao Brasil, vi um cartaz que dizia: “Bem-vindo, Ancelotti, você é o cara!”. Acho que ele queria dizer: “Você é a pessoa que vai trazer a Copa de volta”, e é essa pessoa que eu quero ser. O sonho de todo brasileiro é ver o Brasil campeão de novo. Agora esse é o meu sonho também, e tentarei realizá-lo dando tudo de mim. É uma grande responsabilidade, mas que desafio maravilhoso – vencer a Copa do Mundo com o Brasil”.