Em agosto de 1975, o repórter Marcos Faermanfazer Jornal da Tardefoi à Fundação para o Livro do Cego no Brasil para escrever sobre os 150 anos do sistema Braille. Leia a íntegra com a grafia original da época.
Jornal da Tarde – 16 de agosto de 1975

Reportagem de Marcos Faerman sobre os 150 anos do sistema Braile publicada no Jornal da Tarde de 16 de agosto de 1975. Foto: Acervo Estadão
O garoto que ensinou os cegos a lerem com as mãos
Louis Braille tinha 15 anos quando inventou o alfabeto para leitura dos cegos: seis pontinhos em relevo, formando 63 combinações diferentes. Até há pouco tempo (antes da criação de máquinas especiais), verter um livro para o Braille era um exercício de paciência que levava meses.
Marcos Faerman
Sim, existia um verbo, apenas, que embaraçava a doutora Ebe no seu paciente trabalho de verter um livro para o alfabeto que os cegos lêem com as mãos: o verbo ver. Era a história da menina Poliana. E Poliana era uma menina muito alegre — exatamente isto constrangia a doutora Ebe Rosseti Fausto.
Porque a alegria de Poliana, a personagem do livro que estava vertendo para o alfabeto de pontinhos em relevo criado por uma criança cega em 1825, aparecia a cada página. Poliana era uma menina apaixonada por tudo que via: borboleta, flor, sol. Ebe, médica pediatra do Hospital São Paulo voluntária da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, achava que não seria bom para uma pessoa cega ler, a todo momento, o verbo ver.
Pensava saídas: quem sabe não seria melhor escrever “sentir”?
Era um trabalho de paciente, este. E lá ficava a doutora — como muitas outras voluntárias de uma instituição sem tantos recursos quantos seriam necessários, fazendo sua obra, apoiada sobre a Reglete (prancha de madeira sobre a qual havia uma lâmina metálica, com todos os buraquinhos inventados por Braille). “Um trabalho de paciência”, pensa ainda hoje a médica que naquele tempo tinha filhos pequenos — agora ela está mesmo pensando em voltar a esta tarefa. Mas agora — 150 anos depois da criação do sistema — existem máquinas especiais que facilitam a criação de livros no alfabeto Braile.
A história deste alfabeto começa no ano de 1812. Louis, o filho de um seleiro, está brincando na oficina do pai Simon. O filho do artesão gosta de imitar o pai, e é isto que o pequeno faz quando a agulha bate no couro, resvala e fere seu olho esquerdo. A sabedoria de uma medicina feita de compressas de água e sanguessugas não impede a inflamação de crescer, e aos cinco anos Louis é mais um menino cego da França.
A esperteza de Louis vai confundir o abade Palluy, dizem seus biógrafos, e seu mestre Brecheret — e ele irá mais à frente desta história modelar para a Instituição para Jovens Cegos de Paris, que tinha a ajuda do próprio Rei e da Rainha.
A 15 de fevereiro de 1819, começam as jornadas de Louis no Instituto, onde os meninos repetiam as explicações e textos que ouviam, e estudavam em algumas obras escritas no sistema de Valentin Hally — como explicam Jurema Lucy Venturini e Teresinha Fleury de Oliveira Rossi, em um trabalho dedicado aos 150 anos da criação do sistema Braille. Mas não adiantemos a história. Neste momento, o gênio é ainda apenas um garoto que sofre com a disciplina rígida de uma escola dos velhos tempos, onde não faltam nem os bolos nas mãos nem o castigo do isolamento, do pão e da água como únicos alimentos. Biógrafos registram os méritos de Louis Braille nesta época: a habilidade “em cortar e fazer chinelos”.
É aqui que irão se encontrar as dificuldades do jovem cego e a astúcia de um capitão da artilharia.
Porque o capitão de artilharia Charles Barbier de la la Serre, oficial de Sua Majestade Louis XIII, tinha especial horror à transmissão de ordens durante a noite. Para melhor fazer cumprir as marchas de avanço e de recuo de seus homens, pensou num sistema de sinais em relevo, que propiciariam bons resultados militares no segredo que esta arte exige. Denominou sua invenção de “escrita noturna”.
Charles Barbier de la Serre pensava mais do que em golpes de espada e tiros de canhão. A “escrita noturna” militar foi a raiz de uma “grafia sonora” para cegos.
Com uma regra guia e um estilete à mão, eis Louis Braille e um amigo aprendendo os segredos do sistema Barbier. Mas Braille logo descobriu algumas deficiências do sistema Barbier — e começou a pensar em uma noya escrita, à qual chegou aos 15 anos. Louis é desencorajado por uns, animado por outros; leciona muito e aos 26 anos é um moço tuberculoso.
Seu sistema é adotado primeiro no estrangeiro, depois, em 1843, no Instituto Real para Jovens Cegos, e ele só vai ter oito anos para viver, depois de ser reconhecido em seu país como um grande mestre: a tuberculose mata-o em dezembro de 1851, sabendo que em muitas partes do mundo os cegos podiam ler, com “a ponta do dedo indicador de uma das mãos — esquerda ou direita… ou com o dedo médio ou anular, em vez do indicador.”
Só um exercício de paciência permitia a criação dos livros Braille, na época em que ainda não existia o que pode ser chamado de a máquina de escrever Braille. Escrever uma página exigia, às vezes, uma hora. Meses e meses eram necessários para que um livro fosse preparado para a Biblioteca da Fundação para o Livro do Cego no Brasil, por exemplo, onde existem hoje centenas de obras, inclusive as aventuras de James Bond.
Cada letra no alfabeto Braille, baseado na formação de seis pontos em relevo que formam 63 combinações diferentes, ocupa muito mais espaço do que uma letra em nosso alfabeto. “Goldfinger, de Yan Fleming, salta de suas duzentas e poucas páginas para cinco gordos volumes de 120 páginas cada uma.
— Como existem poucos livros para cegos — explica a professora Maria Cristina Godói Cruz — da Fundação (rua Diogo de Faus, 558, São Paulo) , eles se interessam por tudo, — do Contrato socialdo Rousseau, até OS Lusíadasou o último best-seller de espionagem.
Para estudar, os cegos devem vencer uma dificuldade ainda maior: o medo.
E era isto que sentia Maria Helena, hoje formada em História, quando deixou de estudar em uma escola exclusiva para cegos. Assim que começou a fazer o Normal, achou que seria impossível continuar na escola. Não tinha apenas os problemas de um adolescente, era hipersensível, e no momento em que entrou em uma sala de aula “com crianças normais”, como ela diz, sentiu-se mal.
Acreditava que ninguém se interessava por ela, ali e que só tinha uma coisa a fazer: largar os estudos. O pai insistiu, Madre Natália convenceu-a de que isto não era verdade, e Maria Helena voltou a estudar, mas a verdade é que depois de tudo, muito mais à frente, viu que, mesmo formada em História, sua situação era difícil. Não trabalha como professora. Teve uma experiência como telefonista. Deverá trabalhar como recepcionista — e isto a encanta. Sozinha caminha pelas ruas de São Paulo e acha que as pessoas são muito gentis e se interessam pelos cegos.
“Há mais pessoas boas do que ruins”, é o que ela constata em suas caminhadas, apoiada em uma bengala. Isto a anima a viver.
JORNAL DA TARDE
Por 46 anos (de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012) o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo de Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo.
Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.