No evento de lançamento do novo álbum dos Pedras rolantes, Línguas Estrangeirasem Nova York, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Madeira falaram sobretudo do passado. A conversa com o comediante americano Conan O’Brienpara poucos convidados nesta terça-feira, 5, começou pela menção ao blazer de Jagger. O’Brien comparou a roupa do cantor britânico à de Willy Wonka, o excêntrico personagem do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate.
Jagger riu antes da primeira referência à longevidade dele e dos Rolling Stones: uma questão sobre como ele conseguiu preservar sua voz depois de décadas. O artista citou os excessos dos anos 1960, quando a banda se formou, mas disse que o cuidado com a voz é, hoje, uma questão de prática.
A gravação de Línguas Estrangeirascom lançamento previsto para 10 de julho, levou apenas um mês. A banda gravou o álbum no Metropolis Studios, em West London, porque precisava, segundo Jagger, “da energia de Londres”. “Era um estúdio pequeno em que, olhando à volta, a gente via rostos familiares, bem de perto”, contou o cantor, de 82 anos.

Ronnie Wood, Mick Jagger e Keith Richards chegam para evento no Brooklyn, em Nova York, para falar sobre novo álbum dos Rolling Stones Foto: Timothy A. Clary/AFP
O’Brien mencionou “a urgência e imediatez” da gravação de Línguas Estrangeiras. Jagger respondeu que esse álbum é diferente do que costumavam fazer — antes, “passavam meses gravando”. “Desta vez foi mais espontâneo”, disse Keith Richards, também de 82 anos. “Nós ouvíamos e decidíamos no momento se a música funcionava ou se crescia dentro da gente”, completou o guitarrista. No lugar de deliberação excessiva, o que prevaleceu foi instinto e entrosamento. Ronnie Wood, 78, acrescentou que havia “um árbitro” no estúdio para decidir o que dava certo ou errado — e esse árbitro é o produtor André Watto mesmo de Diamantes Hackneyo álbum anterior dos Rolling Stones, lançado em 2023.
Ao se referir a Watt, O’Brien comparou Línguas Estrangeiras um Exílio na rua principalde 1972. Segundo Victor Coelho, professor de musicologia da Boston University, os quatro álbuns que os Stones lançaram entre 1968 e 1972 — Banquete dos Mendigos, Deixe sangrar, Dedos pegajosos e Exílio na rua principal — constituem o núcleo identitário da banda e o repertório canônico que definiu o seu legado musical, histórico e cultural. É desses discos que vem a imagem mais duradoura dos Rolling Stones: a de uma banda que mergulhou nas tradições do blues do Delta do Mississippi, do country rural e dos idiomas afro-americanos e os transformou em metáforas para interpretar uma cultura que enxergavam como revolucionária, embora perturbada por tensões raciais e geracionais. A fase iniciada pelo álbum Banquete dos Mendigosde 1968, vem marcada por letras mais sombrias e uma aproximação mais intensa com a tradição musical do sul dos Estados Unidos.
Nessa fase, os Stones reconheciam a violência e o caos ao redor — mas preferiam observar de longe a mergulhar na luta. As letras colocam Lúcifer em jantares elegantes, invertem a ordem moral, sugerem rebelião. Mas quando chega a hora de agir, os personagens recuam. Há consciência política, mas pouco compromisso. Segundo Coelho, cada fase da banda desde então é uma variação sobre essa tensão original — o que faz de Línguas Estrangeirasmais de cinco décadas depois de Exíliouma volta àquele núcleo identitário da banda britânica.
‘Nunca esqueceram as raízes’
Para carta de Áspero e Torcidofaixa do novo álbum revelada em abril, parece representar uma promessa traída e uma referência a esse retorno. Quem canta quer ser levado a Porto Rico — onde a água brilha e a maré sobe e desce em ritmo lento. A imagem inicial é de luz, movimento, prazer. Há, porém, uma reviravolta. O destino real é outro: uma cidade infestada, onde o ar tem um cheiro acre e tóxico, onde você não consegue respirar. É o avesso das paisagens tropicais prometidas. Essa mudança de cenário — do paraíso prometido para um lugar irrespirável — é o núcleo dramático da faixa. Você não está cantando sobre uma jornada física, mas sobre decepção. No trecho mais denso da letra, quem canta chega ao único clube daquele lugar, chamado Conspiracy. Ali não se sente bem-vindo. O que você encontra é tirania. É uma imagem bruta e direta de uma terra que prometia liberdade, mas onde degradação e controle se espalharam.
Já Nas estrelasdivulgada nesta terça, parece começar onde Áspero e Torcido termina — num mundo degradado, mas com outra conclusão. Menciona-se uma doença que contamina a terra, um poder exercido por juízes e seus carimbos. É a burocracia da opressão, a tirania administrativa — não espetacular, mas eficaz. O mundo está doente. A música, ao contrário da letra, é eufórica. A resposta dos Rolling Stones à “doença da terra” não é a revolta direta — é a dança, o desejo, a aposta no destino. “Está nas estrelas, é o nosso destino” — um refrão cantado em uníssono, acompanhado por piano. Há uma tensão deliberada entre o diagnóstico sombrio e a música que o embala. Os Rolling Stones não oferecem solução. Oferecem ritmo. É uma postura que remonta àquela produção canônica da virada dos anos 1960 para os 1970: o mundo está torto, mas se dança assim mesmo.
O’Brien observou que os Rolling Stones não têm nada a provar como banda de rock após mais de seis décadas de atividade. O legado está consolidado há tempos. Jagger concordou e notou que Línguas Estrangeiras “não está preso a um estilo musical específico”. No disco, eles percorrem a própria carreira, com música country, blues, baladas e rock. Jagger citou Hank Williams como uma influência permanente — “uma declaração de amor à América” — e mencionou Linda Dalilauma música que os Stones gravaram no início da carreira, como exemplo dessa amplitude. “Eles (Jagger e Richards) nunca esqueceram as raízes”, emendou Wood.
No topo da camada Línguas Estrangeiras — uma pintura do artista americano Nathaniel Mary Quinn que funde os rostos de Jagger, Richards e Wood numa única imagem —, Jagger a chamou de “O Sr. Feio”. Durante o evento, Quinn explicou que a pintura é “um amálgama” da carreira e da “jornada da banda ao longo do tempo”. São três rostos que se unem em um retrato distorcido e fragmentado, como se mais de 60 anos de produção musical fossem sintetizados.

‘Foreign Tongues’, novo álbum dos Rolling Stones Foto: Reprodução @therollingstones via Instagram
O álbum é o 25.º disco de estúdio da banda e conta com participações de Paul McCartney, Steve Winwood, Robert Smith, do The Cure, e Chad Smith, do Red Hot Chili Peppers. Wood contou que McCartney quis participar sem hesitar. “Agora posso dizer que toquei com os Rolling Stones”, disse Wood, imitando o ex-Beatle. McCartney já havia participado de Diamantes Hackneyde 2023. O disco traz ainda uma gravação do baterista Charlie Watts, feita numa de suas últimas sessões antes de morrer, em agosto de 2021.
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O lançamento digital de Áspero e Torcido e Nas estrelas vem depois de uma distribuição incomum. Em abril de 2026, os Rolling Stones prensaram Áspero e Torcido em apenas mil cópias numeradas de um compacto de 12 polegadas, distribuídas a lojas independentes ao redor do mundo — sem lançamento digital, sem streaming. O single saiu sob o pseudônimo The Cockroaches, apelido que a banda usa desde os anos 1970 para shows secretos. As lojas participantes foram divulgadas de forma discreta: o site TheCockroaches.com escondia, no verso da imagem do compacto, as coordenadas geográficas de dezenas de pontos de venda espalhados pelo mundo.
A campanha começou com cartazes colados por Londres exibindo o nome “The Cockroaches” e um código QR que redirecionava para um site registrado pela Universal Music com a pergunta “Who The Fuck Are The Cockroaches?”. Um vídeo no Instagram da conta “thecockroaches2026” trazia a legenda “64 & Counting”, uma referência aos 64 anos de carreira da banda, e mostrava alguém colocando um disco branco sem identificação numa vitrola. Os estoques se esgotaram em poucas horas. No mercado de revenda, as cópias chegaram a custar entre US$ 800 e US$ 2.200.