ETV 2026: os vencedores e algumas questões

ETV 2026: os vencedores e algumas questões

ETV 2026 Os vencedores e algumas questões

Não deixa de ser curioso que o vencedor de um festival de documentários seja o concorrente mais ficcional de todos. Um Filme de Medodo diretor brasileiro radicado na Espanha Sergio Oksman, põe em cena uma dupla de personagens: o próprio cineasta e seu filho, Nuno Oksman.

Sobre essa base real, assenta-se a invenção: a hospedagem em um hotel sinistro em Lisboa, que evoca um paradigma do cinema de terror, o clássico O Iluminadode Stanley Kubrick. Entra em cena mais uma série de procedimentos ficcionais, como os personagens de entorno do duo central, como um divertido funcionário do hotel que, na realidade, é um fotógrafo amigo de Oksman.

O próprio Sergio Oksman dizia, na apresentação do filme, não saber direito o que estava fazendo num festival de documentários. Para depois se corrigir, dizendo que era, no fundo, um documentário sobre a relação de um pai e um filho. Para constar, Oksman já havia ganhado o prêmio principal do É Tudo Verdade com O Futebol, em 2015. Filme que, em seu valor de face acompanhava a Copa do Mundo no Brasil, mas, de fato, media a relação do diretor com seu próprio pai.

Mas, enfim, ficção ou doc? Já faz algum tempo que a distinção rígida entre documentário e ficção não faz mais sentido. É daquelas coisas que “de tão óbvias” deixaram de ser discutidas. A discussão virou démodé. Mesmo porque, dizem alguns críticos, a ficção já está inscrita na própria história do cinema desde os primeiros fotogramas. O que conhecemos como A Saída dos Operários da da Fábrica Lumière (1895) é uma segunda tomada. Louis Lumière não gostou da primeira e instruiu as operárias para a segunda tomada, que, essa sim, passou à história como um dos primeiros, talvez o primeiro documentário do cinema. Não tinha mais nada do “natural” que se supõe no cinema-verdade associado ao documentário. Procedimentos semelhantes são encontrados em clássicos do gênero, como Nanook, O Esquimóde Robert Flaherty, ou Aruandade Linduarte Noronha, para não falar de Dziga Vertov, conhecido como o inventor do “doc-ficção”.

Há um percurso do pensamento (ocidental) nessa oscilação entre a verdade dos fatos e a ficção. Como registrar o fato em si? Dessa dificuldade, passou-se à incerteza, não apenas como inerente (veja-se a física quântica e o Princípio da Incerteza de Heisenberg quando aplicado ao mundo da cultura). A relatividade das certezas já foi uma postura progressista. Por exemplo, pela leitura de Marx, Nietzsche e Freud, Foucault podia afirmar que não existem fatos: o que existem são interpretações.

Essa flexibilização nos libertava das certezas positivistas e nos abria portas para a invenção como criatividade e a convivência de interpretações diferentes, quando não opostas como signo de civilidade.

Mas o que dizer quando a relativização da verdade passa a repousar num mundo de fake news e é posta a serviço da extrema-direita, como acontece em nossos dias? Primeiro como negação do conhecimento: um cientista pode apresentar os resultados de uma pesquisa de anos, embasada empiricamente, publicada e colocada sob escrutínio de seus pares e ser contestado pelo leigo que e diz: “Essa não é a minha opinião”. E ponto final. Além disso, vivemos a propagação de mentiras e falsidades com propósito de criar o caos e a confusão, gerando o ambiente favorável à propaganda “antissistema” da mesma extrema-direita. Como não se sentir tentado, nesse ambiente, a restabelecer ou pelo menos voltar a refletir sobre a velha e surrada questão da verdade?

Talvez essa verdade vilipendiada, colocada entre aspas, mereça de novo ser tomada a sério, colocando em xeque tanto os limites do nosso conhecimento como a medida de até onde podemos chegar a alguma certeza neste nosso tempo “líquido”, para usar uma categoria de Zygmunt Bauman.

Talvez possamos, de novo, colocar o tema da verdade na pauta do cinema documental, sem empobrecê-lo. Em todo caso, é sintomático que uma obra como Um Filme de Medo traga, de contrabando, esse tipo de questão. É uma oportunidade que se abre.

Já o vencedor da mostra nacional, Sagradode Alice Riff, comporta-se de maneira menos inesperada, mas nem por isso menos efetiva. De certa forma, é complemento da obra anterior da cineasta. Em Eleições, ela registrava o movimento estudantil secundarista. O aluno e suas reivindicações. O estudante e sua política de resistência.

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Agora, é o todo da experiência escolar que entra em cena. Os alunos, é claro, mas todo o resto do pessoal que constitui a instituição escolar: professores, funcionários da cozinha e da limpeza, diretora, vigilantes, etc. Todo esse conjunto de pessoas que precisam funcionar em razoável harmonia para que a experiência escolar cumpra sua função. Desafio e tanto, já que essa função implica não apenas a transmissão de conhecimentos, mas a formação de indivíduos como cidadãos, na passagem por uma idade difícil como a adolescência. No caso de países como o Brasil, com o adicional da questão social da desigualdade, trazida da casa para a sala de aula e para o convívio com outras pessoas.

Experiência, no caso do filme, complementada pelo fato de que, aquele mesmo local, tempos atrás, tenha sido palco de uma luta pela moradia. Esta outra luta é uma camada a mais na representação do mundo escolar em si mesmo, e como microcosmo da sociedade.

O filme expressa o desafio de trazer essa representação complexa através das falas dos seus protagonistas em sua experiência de vida e trabalho. Não convoca especialistas para ditar palavras definitivas, mas aceita que o complexo se deixe captar pela integralidade desses personagens ouvidos de forma não-hierárquica – o depoimento da cozinheira ou do vigilante vale tanto como o da diretora e do professor.

É possível que essas e outras questões passem em filigrana por outros selecionados do festival, como perguntas latentes que o chamado “cinema do real” vê-se obrigado a fazer.

Entre os curtas brasileiros, o destaque foi para o pernambucano Os Arcos Dourados de Olindado diretor estreante Douglas Henrique. Venceu o prêmio principal e vários outros paralelos. A ideia é colocar em confronto dois fatos paralelos na vida da cidade histórica: a eleição de uma prefeita comunista e a inauguração do primeiro McDonald ‘s. Uma espécie pós guerra fria, em que valores mais permanentes se afrontam com o fast food como apologia do precário, alegoria construída com humor e senso de ironia. Um deleite para quem ainda consegue enxergar este mundo doido pela lente do cômico que, de maneira nenhuma, exclui a crítica. Pelo contrário, a intensifica.

Abaixo, a premiação completa

. “Um Filme de Medo”, de Sérgio Oksman (Espanha, Portugal) – melhor longa internacional

. “Sagrado”, de Alice Riff (São Paulo) – melhor longa brasileiro pelo Júri Oficial e Prêmio Apaci de melhor direção (Associação Paulista de Cineastas)

. “Apopcalipse Segundo Baby”, de Rafael Saar (Rio de Janeiro) – menção honrosa do Júri Oficial, Prêmio Prêmio edt.(Associação de Profissionais de Edição Audiovisual), Prêmio Maria Rita Galvão, atribuído pela Pavic (Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo), ABPA (Associação Brasileira de Preservação Audiovisual) e Repia (Rede de Pesquisa de Imagens de Arquivo)

. “Meu Pai e Gaddafi”, de Jihan (EUA e Líbia): menção honrosa

. “Sonhos de Apagão”, de Gabriele Licchelli, Francesco Lorusso e Andrea Settembrini (Cuba, Itália): melhor curta internacional

. “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique (Pernambuco): melhor curta brasileiro pelo Júri Oficial, Prêmio Canal Brasil, Prêmio Apaci de melhor direção (Associação Paulista de Cineastas) e Prêmio edt. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual) . Menção honrosa para “Se Não Gosta, Não Olhe” (França), de Margaux Fournier

. Menção honrosa para os curtas “Filme-Copacabana”, de Sofia Leão, e “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, de Clea Torres e Gilson Costa.

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