Todos nós já tivemos pensamentos que aparecem na forma de conversas. Um exemplo é quando imaginamos como iremos explicar ao chefe por que chegamos atrasados. Esses pensamentos, assim como sentimentos e memórias visuais, são produtos de nossa mente.
Mas o que é nossa mente? Ela é o produto da atividade de bilhões de neurônios interconectados que formam nosso cérebro. Basta dormirmos, sermos anestesiados ou morrermos para que nossa mente desapareça temporariamente, se modifique ou mesmo deixe de existir. E somente temos acesso à mente de outra pessoa quando ela fala conosco, escreve ou se manifesta de outra maneira. Fora esses casos, a mente é algo privado, onde guardamos segredos ou temos pensamentos que não ousamos expressar.
Mas se a mente é o produto da atividade dos neurônios, e essa atividade elétrica pode ser medida diretamente no cérebro de uma pessoa com eletrodos que detectam os disparos elétricos dos neurônios, em teoria podemos ter acesso ao que ocorre na mente de outra pessoa. Basta medir a atividade de neurônios e transformar essa informação na imagem ou na palavra codificada por essa atividade. E isso, que era uma possibilidade teórica vislumbrada faz décadas, agora está se tornando uma realidade.

Estudo é um dos primeiros exemplos de uma tecnologia que permite que outra pessoa tenha acesso a nossos pensamentos. Foto: SiriToshi/Adobe Stock/Gerado com
Faz três semanas descrevi aqui um experimento em que uma pessoa paralisada, incapaz de falar, teve eletrodos implantados diretamente em seu cérebro, na região que comanda o sistema vocal. Um sistema de computador foi treinado para reconhecer cada padrão da atividade elétrica dessa região e associar cada padrão ao som de um fonema. Dessa forma, quando a pessoa tentava falar uma frase, o computador decodificava a atividade elétrica dos neurônios em fonemas e tocava o som dos fonemas em um alto-falante. A pessoa passou a falar usando esse sistema.
A novidade agora é que um outro grupo de pesquisadores que estava realizando um experimento semelhante implantou eletrodos em uma região próxima à que comanda a fala e obteve resultados semelhantes. Mas o mais impressionante é que os cientistas descobriram que, além de detectar a atividade dos neurônios que correspondiam ao que a pessoa estava tentando falar, foram detectadas outras atividades neuronais, que também correspondiam a palavras e sons, mas que não correspondiam à frase que o paciente estava tentando falar. E o computador, analisando essa atividade, foi capaz de decodificar esses outros sinais.
Analisando cuidadosamente essas outras frases ficou claro que elas correspondiam a pensamentos na forma de frases. Exemplo: o paciente era instruído a tentar falar a frase “o gato é preto”, mas a atividade dos neurônios também indicava outras frases, como, por exemplo, “essa cientista loira é bonita”.
Confrontado com ambas as frases, o paciente afirmava que a primeira frase era o que ele estava tentando falar e a segunda é o que ele estava pensando, falando para si mesmo, e que não tinha intenção de falar essa segunda frase. Era só um pensamento. Esse resultado demonstra que é possível, medindo a atividade elétrica dos neurônios, descobrir o que a pessoa está pensando com sua voz interna, além do que ela está tentando falar comandando a boca e as cordas vocais. Ou seja, o sistema estava lendo os pensamentos. E isso é uma invasão total da privacidade mais íntima do voluntário.
Para continuar as pesquisas, os cientistas programaram o computador a só decodificar os pensamentos da voz interna se o voluntário tentasse falar no início da sessão uma senha. Sem a senha o computador somente decodificava e colocava no alto-falante o que o paciente estava tentando falar, preservando a intimidade dos outros pensamentos.
Esse é um dos primeiros exemplos de uma tecnologia que permite que outra pessoa tenha acesso a nossos pensamentos. É uma demonstração direta de que nossos pensamentos e, portanto, nossa mente, nada mais são do que o produto da atividade elétrica dos neurônios que habitam nosso cérebro.
Mais informações: Fala interna no córtex motor e implicações para neuropróteses da fala. Célula https://doi.org/10.1016/j.cell.2025.06.015 2025